O dia comecou normalmente, com uma entrevista marcada para as 14h na Embaixada da Holanda, perto de Amarat. Depois de almoco enfrentei o sol e vento sudaneses e caminhei ao longo da longa Afrika Street ate chegar 'a embaixada. Assim que cheguei, a Chefe de Missao que ia entrevistar perguntou-me, imediatamente, se nao tinha tido problemas em chegar ali. Sem perceber o porque da pergunta, respondi que nao, que tinha ido a pe, sem problemas. Percebi a razao de ser da pergunta e a estranha calma dentro da Embaixada, quando me explicou que havia, no centro da cidade, uma manifestacao de cerca de 10000 sudaneses contra a reedicao dos cartoons dinamarqueses sobre Maome e em defesa absoluta do Islao. Por esse motivo, as varias representacoes diplomaticas e internacionais na cidade haviam aconselhado a comunidade estrangeira a evitar aquela zona. So quando cheguei a casa, depois da entrevista, e vi as imagens no noticiario da Aljazeera 'e que me apercebi da real dimensao do acontecimento que levou o proprio Presidente Bashir 'a rua para garantir aos sudaneses que mais nenhum nacional dinamarques pisara solo sudanes.. E foi nessa altura que pensei no jeito que da ser nacional de um pequeno e pacifico pais no cantinho da Europa e que, por estas bandas, poucos conhecem. Amanha volta tudo ao normal e nesta zona da cidade, bem longe do local da manifestacao, nao houve qualquer sinal de perturbacao. As pessoas sorriram e cumprimentaram como nos restantes dias. Mas parece que foi um dia agitado...Espreitem aqui porque: http://english.aljazeera.net/NR/exeres/56B72D55-3F14-4365-B505-885BFBAE2138.htm
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Via verde para o paraiso?
Ainda a proposito do imenso calor fora de epoca, pelo menos para mim, que tenho passado na capital sudanesa, achei particular piada a uma conversa que tive ontem com a secretaria de um alto represante europeu em Khartoum. Dizia-me ela, de nacionalidade egipcia, que o tempo agora nem estava muito mau, mas que a partir de Abril, sim, se torna impossivel aguentar os mais de 50 graus de calor seco, juntamente com as tempestades de areia fortes e constantes; e que por isso nunca passa o mes de Maio em Khartoum e faz tudo para poder tirar ferias nessa altura e rumar 'a sua terra natal, onde esta mais fresco. E acrescentou, em jeito de graca, mas com grande conviccao: ' Eu tenho a certeza que quem consegue viver e sobreviver ao Verao em Khartoum tem entrada garantida no paraiso. Sim, porque o inferno ja o vivemos aqui!' Deixei-me rir, pois claro, porque nao deixa de ter alguma razao...
As consequencias do po..
Os dois pares de sapatos que trouxe, escolhidos ja a pensar na provavel adversidade do terreno local, dificilmente vao voltar a ser os mesmos, tal 'e a camada de po e terra ja entranhada... Garanto-vos que eram bem mais escuros e tinham melhor aspecto que agora. A opcao sandalia, bastante popular por estas bandas nao me convence por razoes obvias. Mas o que mais me surpreende por aqui 'e a naturalidade com que as pessoas usam e abusam dos sapatos brancos.... 'E preciso coragem, sem duvida nenhuma, para sair 'a rua com sapatos brancos, porque a probabilidade de chegarem a casa completamente castanhos 'e, digamos, de 100%!! E quem fala de sapatos fala de calcas tambem. Ora vejam bem o estado em que ficaram as minhas (sim, sao mesmo minhas..) depois de uma manha a percorrer as ruas de Khartoum... Ate parece mal andar assim na rua, eu sei, mas nao tenho grande alternativa. Trabalho a quanto obrigas..;)
domingo, 24 de fevereiro de 2008
As leis e as liberdades
O Sudao 'e um pais maioritariamente muculmano e a capital Khartoum reflecte bem essa maioria. Ha alguns sinais de diversidade religiosa, visiveis em algumas escolas ou igrejas/catedrais catolicas espalhadas pelas varias areas urbanas de Khartoum, mas os simbolos e rituais islamicos destacam-se e dominam em cada rua, esquina ou edificio da capital. As oracoes nas mesquitas sao cumpridas religiosamente 'as horas devidas, o chamamento ouve-se varias vezes ao dia do alto dos muitos minaretes esapalhados pela cidade, e uma copia do Corao ocupa lugar de destaque nos tabliers da grande maioria dos automoveis que circulam pela cidade. O Acordo Geral de Paz, que pos fim ao conflito de decadas entre Norte (maioritariamente muculmano) e Sul (maioritariamente cristao) do pais, inclui a possibilidade de a capital ser terreno 'neutro' do ponto de vista da lei aplicavel, ou pelo menos que a lei islamica nao seja obrigatoriamente aplicada e imposta aos nao-muculmanos. Mas por enquanto, tres anos passados desde a assinatura do acordo, e porque esta 'e uma questao sensivel e de dificil consenso, a Sharia 'e, para todos os efeitos, a lei aplicada em Khartoum e a todos os cidadaos, independentemente da religiao de cada um. E por isso, por exemplo, continua a ser proibido o consumo de alcool. Festas sim, mas com coca-cola ou suminho de fruta, e sem abusos, se fazem favor. Escusado sera dizer que havera sempre formas de fazer chegar bebidas alcoolicas as maos dos nao-muculmanos, e nao 'e invulgar que nas ruas nos abordem perguntando se queremos umas cervejas. Mas algo me diz que, por aqui, 'e melhor ir recusando a oferta e ir matando a sede com aguinha engarrafada.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Os 'devishers dancers' do Hamed al-Nil Tomb
O momento alto da visita a Omdurman foi sem duvida vivido em pleno cemiterio, perto do tumulo do Sheik Sufi Hamed al- Nil, onde um grupo de homens e algumas mulheres se juntam para um ritual de danca e oracao - dhikr- e durante o qual recitam continuadamente os nomes de Deus de modo a criar um estado de transe para que os seus coracoes possam comunicar directamente com Deus. A multidao em volta ajuda ao ritual cantando repetidamente 'La illaha illahllah', isto 'e, ' nao ha outro Deus que nao Ala', a primeira frase da profissao de fe muculmana. Acontece todas as sextas-feiras, ao por do sol, na misteriosa zona de Omdurman, onde o Nilo Azul e o Nilo branco se cruzam. E 'e qualquer coisa de extraordinario, garanto-vos.
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